Tenho 54 anos e o meu estilo pessoal enfrentou mudanças que não escolhi. Foi um processo de reconstrução sem perder a identidade.
A verdade é que não estava minimamente preparada para isto. E, olhando à minha volta, não creio que a minha geração estivesse. Nunca ninguém nos falou verdadeiramente sobre estas questões. Para mim, menopausa significava o fim da menstruação, da fertilidade, algum aumento de peso e calores. Mais nada. Era um tema quase interdito. Silencioso. Como se fosse o início do fim. As nossas mães sabiam pouco, e o pouco que sabiam muitas vezes não era partilhado. A informação era escassa, fragmentada e muitas vezes desatualizada. Como tenho uma curiosidade natural e um pensamento muito orientado para o conhecimento, quando começaram os primeiros calores fui procurar respostas. Li, investiguei, ouvi podcasts de especialistas, mergulhei no tema. E percebi algo desconcertante: há várias gerações de médicos que também sabem pouco sobre a menopausa. Porque não lhes foi ensinado de forma consistente. Porque durante décadas este tema foi tratado de forma marginal. Na realidade, consultei médicos que me disseram literalmente para aguentar, que era da idade e que nada havia a fazer. Se pararem de ler aqui, já valeu a pena porque vos digo já: eles estão profundamente errados. Há muito a fazer, a começar, inevitavelmente, por mudar mentalidades e o desconhecimento científico. Acontece que, numa sociedade historicamente centrada nas necessidades masculinas, o bem-estar feminino foi frequentemente deixado para segundo plano. Ou pior, negligenciado. Crescemos com a ideia de que ser mulher implica suportar, adaptar, aguentar. Em silêncio e bem comportadas. Hoje sei que comecei a ter sintomas de perimenopausa a partir dos quarenta e poucos anos. A menopausa propriamente dita chegou apenas este ano, aos 54. E onde é que o estilo entra aqui? Em tudo. A menopausa não altera apenas o corpo. Introduz uma reorganização profunda na forma como nos percebemos, nos apresentamos e nos relacionamos com a nossa imagem. O estilo pessoal é impactado em três níveis: físico, emocional e identitário. Ignorar esta interligação leva a soluções superficiais que não fazem a reconexão entre o que sentimos, o que somos e o que projetamos e, consequentemente, como comunicamos.
Dos muitos sintomas associados à menopausa e pós-menopausa, são mais de 100, estes foram os que senti e que tiveram impacto direto no meu estilo: Unhas quebradiças e maior queda de cabelo. • Começou nos quarenta. Na altura associei a défices nutricionais. Estava errada. Tomei suplementos sem resultado. Durante anos, ninguém me explicou que poderia ser hormonal. • Como contornei: simplifiquei. Manicure discreta, tons nude, e deixei de fazer alisamentos no cabelo. • Estratégia de ouro: quando não gostamos particularmente de uma zona do corpo, o mais eficaz não é esconder, é neutralizar e redirecionar o foco. Tentar desesperadamente esconder pode criar desarmonia externa e interna. Pele extremamente sensível e com tendência para rosácea. • A partir dos cinquenta, a maioria dos produtos passou a provocar desconforto. • Como lidei: reduzi ao essencial. Produtos adequados, proteção solar elevada diária, mínima exposição solar direta e tratamentos específicos como luz intensa pulsada. • Na maquilhagem, que sempre foi muito natural, simplifiquei drasticamente: BB cream para pele sensível, corretor pontual e base apenas em situações muito específicas. Calores repentinos e suores intensos. • Esta foi, sem dúvida, uma das experiências mais desestabilizadoras. Episódios de suor intenso que afetavam diretamente a minha confiança, sobretudo em contexto profissional. À noite, o impacto no sono foi significativo. • Como ajustei: dei prioridade a tecidos respiráveis, modelagens que não aderem ao corpo e estratégias funcionais. Em contexto de exposição pública, uso uma camada interior de algodão para absorção e proteção, cores mais escuras ou padrões, e frequentemente uma terceira peça como estrutura visual e funcional. • Do ponto de vista médico, após um processo longo de ajuste, quase um ano, a terapia hormonal estabilizou estes sintomas. Dores articulares. • Provavelmente o impacto mais duro. Mãos, joelhos e pés. Houve momentos em que a dor era incapacitante. Cheguei a considerar a possibilidade de uma doença autoimune, que ainda está em avaliação. Durante mais de um ano deixei de conseguir fazer exercício. Foi impossível fazer as minhas caminhadas diárias. Houve uma perda simbólica importante: tive de abdicar dos saltos altos, um elemento identitário desde os 18 anos. • Como resolvi: reestruturei completamente o meu calçado. Saltos médios ou baixos, foco absoluto no conforto técnico, palmilhas adaptadas e acompanhamento especializado. Isto obrigou a reajustar bainhas, proporções e até a lógica de algumas peças no guarda-roupa. • A terapia hormonal e a suplementação ajudaram, sempre com acompanhamento médico. Peso e composição corporal. • Não tive alterações drásticas, visto exatamente a mesma roupa, mas a gestão tornou-se mais exigente. O corpo responde de forma diferente, o que implica maior consciência alimentar. Névoa mental, memória e concentração. • Isto tem impacto na autoconfiança. O estilo começa dentro, e quando há instabilidade interna, inevitavelmente há reflexo externo. No meio de tudo isto, deste tsunami de sintomas, houve momentos em que não me sentia eu. Não era uma questão de atualizar o guarda-roupa ou mudar de estilo. Era um reajuste, sem me anular ou descaracterizar. Digo-vos que é libertador perceber que não nos definimos por detalhes como o salto alto, as unhas de gel ou as roupas de seda. O estilo não vive de peças isoladas; vive do todo. Vive também da postura, da atitude, dos gestos, das escolhas e do pensamento. Somos uma obra multifacetada, um puzzle vivo que se vai construindo, com desafios e paciência, peça após peça. A minha essência manteve-se, continuo a querer sentir-me elegante, contemporânea, confortável e autêntica. Mas o caminho teve de ser redesenhado e uma decisão foi clara: não me anular. Nunca negociar a visibilidade. Atualmente, olho para esta fase como um território desafiante de reconstrução, nem sempre linear, mas profundamente revelador. A menopausa obrigou-me a parar, a observar, a questionar detalhes que durante anos foram certos. Trouxe desconforto, sim. Mas também trouxe lucidez. E essa lucidez teve impacto direto na forma como escolho o que visto e, sobretudo, como me posiciono. Para além de expressão, o meu estilo passou a ser também adaptação com propósito e, acima de tudo, respeito pelo meu corpo e pelo momento em que estou. Sempre soube que o estilo não é estático, nem uma fórmula fechada. Mas esta fase obrigou-me a vivê-lo de forma mais consciente, mais exigente e mais fiel à minha realidade. Já sentiram algo similar? Quais foram os vossos maiores desafios de imagem nesta fase? Comentem comigo e vamos conversar. https://www.instagram.com/breathing.style/
1 Comentário
Patrícia Ramos
4/22/2026 02:27:01 pm
Excelente texto! Obrigada por esta partilha tão sincera e necessária. Tenho a certeza de que muitas mulheres se vão rever nas tuas palavras e sentir-se inspiradas a encarar esta fase com uma nova perspetiva 🩷 És, sem dúvida, uma inspiração.
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